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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
MOMENTOS ......
..... com Vinicius de Moraes
SONETO DO AMIGO
Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.
É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.
Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.
O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...
Vinicius de Moraes
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
POR ESTA ESTRADA AMIGO VEM...........
Traz Outro Amigo Também
Zeca Afonso
Amigo
Maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
Por essa estrada amigo vem
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também
Em terras
Em todas as fronteiras
Seja bem vindo quem vier por bem
Se alguém houver que não queira
Trá-lo contigo também
Aqueles
Aqueles que ficaram
(Em toda a parte todo o mundo tem)
Em sonhos me visitaram
Traz outro amigo também
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
MOMENTOS ...... !!
..... com Betolt Brecht
Aos que virão depois de nós
Eu vivo em tempos sombrios.
Uma linguagem sem malícia é sinal de
estupidez,
uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ainda ri é porque ainda não
recebeu a terrível notícia.
Que tempos são esses, quando
falar sobre flores é quase um crime.
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
Aquele que cruza tranqüilamente a rua
já está então inacessível aos amigos
que se encontram necessitados?
É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
Mas acreditem: é por acaso. Nado do que eu faço
Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado.
(Se a minha sorte me deixa estou perdido!)
Dizem-me: come e bebe!
Fica feliz por teres o que tens!
Mas como é que posso comer e beber,
se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?
se o copo de água que eu bebo, faz falta a
quem tem sede?
Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
MOMENTOS ...... !!
......com Manuel Alegre
Trova do vento que passa
Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.
Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.
Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.
Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.
Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.
Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.
E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.
Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.
Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).
Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.
E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.
Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.
E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.
Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.
Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.
Mesmo na noite mais triste
em tempo de sevidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.
domingo, 5 de fevereiro de 2012
MOMENTOS ......
... com Oswaldo Montenegro
Lista
Faça uma lista de grandes amigos,
quem você mais via há dez anos atrás...
Quantos você ainda vê todo dia ?
Quantos você já não encontra mais?
Faça uma lista dos sonhos que tinha...
Quantos você desistiu de sonhar?
Quantos amores jurados pra sempre...
Quantos você conseguiu preservar?
Onde você ainda se reconhece,
na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria?
Quantos amigos você jogou fora...
Quantos mistérios que você sondava,
quantos você conseguiu entender?
Quantos defeitos sanados com o tempo,
era o melhor que havia em você?
Quantas mentiras você condenava,
quantas você teve que cometer ?
Quantas canções que você não cantava,
hoje assobia pra sobreviver ...
Quantos segredos que você guardava,
hoje são bobos ninguém quer saber ...
Quantas pessoas que você amava,
hoje acredita que amam você?
sábado, 21 de janeiro de 2012
FOLHAGENS..... !!
momentos com MP .......
FOLHAGENS !!
Descobri-te por entre papeis e beatas apagadas,
Embebida em fumo do meu proprio cigarro aceso.
Havia muita esperança...ainda.
Muita saudade,
... Muitas folhas seleccionadas.
Mesmo assim estavas deslumbrante.
Tão especial e indispensavel,
Como se a tua presença,
Fosse todo o ar...
Da minha respiração ofegante.
Como se o silêncio tocasse violino,
Com cordas de amor eterno.
Num tom quase de carência,
Como se cantasse o hino...
Da minha total existência...
sábado, 19 de novembro de 2011
PELA PRIMEIRA VEZ.....
...... comigo !!!
Não sei o que dizem as palavras que escrevo, mas sei que elas sempre falam de mim. Não espero muito das palavras, pouco mais do que um testemunho do que sou, mas isso para mim é importante. Possa você rever-se nelas, e cumpriram sem dúvida a sua missão: revelar nossa humanidade. Desculpe-me ainda o modo como o afirmo, assim, sem mais nem menos, como fosse algo demasiado importante para ser dito. Acredite que escrevo sempre com um sorriso. Escrever liberta-me , sobretudo quando falo de coisas sérias........
Visitava-o todos os dias, nos seus sonhos, e fazia-o muito feliz, tão feliz como nunca alguma vez ele fora. Chegava num passo tão ligeiro que os pés nem pareciam tocar o chão, e logo o abraçava com intensa ternura, sussurrando-lhe ao ouvido que o amava muito. Cheirava a fruta madura e deixava-o louco de desejo... tão louco que ele a procurou por toda a parte e, verdade seja dita, acabou por a encontrar, o que nem mesmo ele acreditara verdadeiramente......
Tinha alcançado uma perfeita consciência de si mesmo, e esse sentimento intenso e persistente era-lhe agradável, mas, ao mesmo tempo, incomodava-o, como se trouxesse vestida uma camisola de um tamanho inferior ao seu. Um dia apaixonou-se e experimentou de súbito o milagre da unidade: perdeu então a consciência de si mesmo e sentiu-se finalmente um só. Estranho caminho é este que nos leva de nós aos outros e dos outros a nós mesmos, pensou , e foi nesse preciso momento que se sentiu completamente feliz * pela primeira vez.
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
MOMENTOS ......
.
..... com Flávio Piteira
Em Véspera de ir a Milão em 2010, para o centenário foi assim: O despertador tocou, eram 5h00m em ponto do dia 25 de Junho de 2010, não havia sono que que conseguisse deixar-me mais um minuto sequer na cama, a velocidade com que me aprontei só poderia ser vencida pelo acelerar de um Alfa numa corrida contra o cronometro, a mala feita na véspera para não me atrasar nem mais um segundo que fosse representava uma grande mas saborosa ansiedade. - Rápido tenho de estar no aeroporto da Portela pelas 6h30 quero um lugar o mais à frente possível, quero ser dos primeiros a chegar a Milão =)), ai queres ? devem ter perguntado os deuses automobilísticos, então para não teres pressas vamos cancelar o voo e só conseguirás descolar para Milão lá para a tarde e mesmo assim sem certeza de haver voo. A Culpa era dos Franceses, fiquei eu a saber, só pode ser sabotagem das marcas francesas que pagaram muito bem para nesse fim de semana, o fim de semana do centenário da Alfa Romeo, fazerem greve e fecharem o espaço aéreo Francês, ou então não queriam que o seleccionador francês regressasse a casa depois de tão triste participação no campeonato do mundo, podia ter acontecido o mesmo ao nosso, bem mas isso são outras contas. Depois de quase um dia no aeroporto sem ter a certeza de quase nada, apenas sabia que tinha de ir a Milão nem que fosse de VW, encontro-me por fim na sala de embarque, o deuses dos automóveis começam por fim a colaborar comigo. Chego a Milão já tarde, tarde de mais para aproveitar o dia, para ver e assistir às primeiras actividades Alfistas, mas estava em Itália, estava em Milão, começo por fim a respirar as origens da Alfa Romeo, começo por fim a perceber os motivos, as razões, as emoções de ser Alfista, o ambiente, a língua, os cheiros, as visões de estilo, tudo influência a razão do coração, a razão de se ter Cuore Sportivo. Acordei dia 26 Junho, depois de uma noite bem aproveitada, curta mas bem dormida, vou para a Rua, estava no meu Mundo, no meu habitat, respirava-se Alfa Romeo, eram Alfas e mais Alfas, eram 8Cs, eram 75s, eram Junior Zagatos, eram SZs e RZs, eram clubes de toda a parte do mundo, Grécia, Brasil, Portugal, França, Itália, Inglaterra, Japão, Holanda, Suiça, e mais muito mais, a nata da Alfa Romeo estava ali, eu estava ali, mas ainda hoje me parece um sonho É um prazer partilhar esta minha experiência com todos os membros do Alfa Romeo Team, tentei escrever de uma forma resumida as vivências e emoções, o resto é com as Imagens e vídeos. Um grande Abraço a todos do enviado especial, especial não, apenas Alfista como todos "vós."
..... com Flávio Piteira
Em Véspera de ir a Milão em 2010, para o centenário foi assim: O despertador tocou, eram 5h00m em ponto do dia 25 de Junho de 2010, não havia sono que que conseguisse deixar-me mais um minuto sequer na cama, a velocidade com que me aprontei só poderia ser vencida pelo acelerar de um Alfa numa corrida contra o cronometro, a mala feita na véspera para não me atrasar nem mais um segundo que fosse representava uma grande mas saborosa ansiedade. - Rápido tenho de estar no aeroporto da Portela pelas 6h30 quero um lugar o mais à frente possível, quero ser dos primeiros a chegar a Milão =)), ai queres ? devem ter perguntado os deuses automobilísticos, então para não teres pressas vamos cancelar o voo e só conseguirás descolar para Milão lá para a tarde e mesmo assim sem certeza de haver voo. A Culpa era dos Franceses, fiquei eu a saber, só pode ser sabotagem das marcas francesas que pagaram muito bem para nesse fim de semana, o fim de semana do centenário da Alfa Romeo, fazerem greve e fecharem o espaço aéreo Francês, ou então não queriam que o seleccionador francês regressasse a casa depois de tão triste participação no campeonato do mundo, podia ter acontecido o mesmo ao nosso, bem mas isso são outras contas. Depois de quase um dia no aeroporto sem ter a certeza de quase nada, apenas sabia que tinha de ir a Milão nem que fosse de VW, encontro-me por fim na sala de embarque, o deuses dos automóveis começam por fim a colaborar comigo. Chego a Milão já tarde, tarde de mais para aproveitar o dia, para ver e assistir às primeiras actividades Alfistas, mas estava em Itália, estava em Milão, começo por fim a respirar as origens da Alfa Romeo, começo por fim a perceber os motivos, as razões, as emoções de ser Alfista, o ambiente, a língua, os cheiros, as visões de estilo, tudo influência a razão do coração, a razão de se ter Cuore Sportivo. Acordei dia 26 Junho, depois de uma noite bem aproveitada, curta mas bem dormida, vou para a Rua, estava no meu Mundo, no meu habitat, respirava-se Alfa Romeo, eram Alfas e mais Alfas, eram 8Cs, eram 75s, eram Junior Zagatos, eram SZs e RZs, eram clubes de toda a parte do mundo, Grécia, Brasil, Portugal, França, Itália, Inglaterra, Japão, Holanda, Suiça, e mais muito mais, a nata da Alfa Romeo estava ali, eu estava ali, mas ainda hoje me parece um sonho É um prazer partilhar esta minha experiência com todos os membros do Alfa Romeo Team, tentei escrever de uma forma resumida as vivências e emoções, o resto é com as Imagens e vídeos. Um grande Abraço a todos do enviado especial, especial não, apenas Alfista como todos "vós."
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
MOMENTOS ......
..... com António Aleixo
Quadras ...
A vida é uma ribeira;
Caí nela, infelizmente…
Hoje vou, queira ou não queira,
Aos trambolhões na corrente.
Crês que ser pobre é não ter
Pão alvo ou carne na mesa?
Mas é pior não saber
Suportar essa pobreza!
O luxo valor não tem
Nos que nascem p’ra pequenos:
Os pobres sentem-se bem
Com mais pão luxo a menos!
A esmola não cura a chaga;
Mas quem a dá não percebe
Ou ela avilta, que ela esmaga
O infeliz que a recebe.
A ninguém faltava o pão,
Se este dever se cumprisse:
- Ganharmos em relação
Com o que se produzisse.
O homem sonha acordado;
Sonhando a vida percorre…
E desse sonho dourado
Só acorda, quando morre!
Quantas, quantas infelizes
Deixam de ser virtuosas…
E depois são seus juízes
Os que as fazem criminosas!...
Sem que o discurso eu pedisse,
Ele falou; e eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
Do que disse não gostei.
Tu, que tanto prometeste
Enquanto nada podias,
Hoje que podes – esqueceste
Tudo quanto prometias…
Chegasses onde pudesses;
Mas nunca devias rir
Nem fingir que não conheces
Quem te ajudou a subir!
Os que bons conselhos dão
Às vezes fazem-me rir,
- Por ver que eles próprios são
Incapazes de os seguir.
Mesmo que te julguem mouco
Esses que são teus iguais,
Ouve muito e fala pouco:
Nunca darás troco a mais!
Entra sempre com doçura
A mentira, pr’a agradar;
A verdade entra mais dura,
Porque não quer enganar.
Se te censuram, estás bem,
P’ra que a sorte te perdure;
Mal de ti quando ninguém
Te inveje nem te censure
terça-feira, 8 de novembro de 2011
MOMENTOS ....
...... com Florbela Espanca
Versos
Versos! Versos! Sei lá o que são versos…
Pedaços de sorriso, branca espuma,
Gargalhadas de luz. cantos dispersos,
Ou pétalas que caem uma a uma.
Versos!… Sei lá! Um verso é teu olhar,
Um verso é teu sorriso e os de Dante
Eram o seu amor a soluçar
Aos pés da sua estremecida amante!
Meus versos!… Sei eu lá também que são…
Sei lá! Sei lá!… Meu pobre coração
Partido em mil pedaços são talvez…
Versos! Versos! Sei lá o que são versos..
Meus soluços de dor que andam dispersos
Por este grande amor em que não crês!…
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
MOMENTOS ......
....com Manuel Poejo
SERRA .... Alma
Onde eu tanto te mirei
Tinha para te dar um recado
Já por mim abandonado
Já não me lembro, já não sei .
Um olhar de pouca distância
A vontade e não corria
Tu sem olhares a luz do dia
Reparavas em mim qual ânsia
Seria esta a oliveira
para ti sempre o mesmo olhar,
Mais um ano para recordar
Foi sempre a mesma cegueira.
Não cansa aquela ladeira
Muito gosto de lá ir
Já não tenho para quem sorrir
E olhar daquela maneira .
Vejo ali a procissão
Onde sempre acompanhava:
O meu olhar não tirava
Do sonho perdido, foi então .
De tanta paixão recordar
Foi ali que te conheci,
Amei-te e fiquei sem ti
Fiquei e não sobe lutar ....
domingo, 6 de novembro de 2011
MOMENTOS ......
......com José Régio
Toada de Portalegre
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Morei numa casa velha,
À qual quis como se fora
Feita para eu Morar nela...
Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
- Quis-lhe bem como se fora
Tão feita ao gosto de outrora
Como as do meu aconchego.
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De montes e de oliveiras
Ao vento suão queimada
( Lá vem o vento suão!,
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão...)
Em Portalegre, dizia,
Cidade onde então sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem fôr,
Na tal casa tosca e bela
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela,
Tinha, então,
Por única diversão,
Uma pequena varanda
Diante de uma janela
Toda aberta ao sol que abrasa,
Ao frio que tosse e gela
E ao vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda
Derredor da minha casa,
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos e sobreiros
Era uma bela varanda,
Naquela bela janela!
Serras deitadas nas nuvens,
Vagas e azuis da distância,
Azuis, cinzentas, lilases,
Já roxas quando mais perto,
Campos verdes e Amarelos,
Salpicados de Oliveiras,
E que o frio, ao vir, despia,
Rasava, unia
Num mesmo ar de deserto
Ou de longínquas geleiras,
Céus que lá em cima, estrelados,
Boiando em lua, ou fechados
Nos seus turbilhões de trevas,
Pareciam engolir-me
Quando, fitando-os suspenso
Daquele silêncio imenso,
Sentia o chão a fugir-me,
- Se abriam diante dela
Daquela
Bela
Varanda
Daquela
Minha
Janela,
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Na casa em que morei, velha,
Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
À qual quis como se fora
Tão feita ao gosto de outrora
Como as do meu aconchego...
Ora agora,
?Que havia o vento suão
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
Dói nos peitos sufocados,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão,
Que havia o vento suão
De se lembrar de fazer?
Em Portalegre, dizia,
Cidade onde então sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for,
?Que havia o vento suão
De fazer,
Senão trazer
Àquela
Minha
Varanda
Daquela
Minha
Janela,
O documento maior
De que Deus
É protector
Dos seus
Que mais faz sofrer?
Lá num craveiro, que eu tinha,
Onde uma cepa cansada
Mal dava cravos sem vida,
Poisou qualquer sementinha
Que o vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda,
Achara no ar perdida,
Errando entre terra e céus...,
E, louvado seja Deus!,
Eis que uma folha miudinha
Rompeu, cresceu, recortada,
Furando a cepa cansada
Que dava cravos sem vida
Naquela
Bela
Varanda
Daquela
Minha
Janela
Da tal casa tosca e bela
Á qual quis como se fora
Feita para eu morar nela...
?Como é que o vento suão
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
Dói nos peitos sufocados,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão,
Me trouxe a mim que, dizia,
Em Portalegre sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for,
Me trouxe a mim essa esmola,
Esse pedido de paz
Dum Deus que fere ... e consola
Com o próprio mal que faz?
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for
Me davam então tal vida
Em Portalegre; cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,
Me davam então tal vida
- Não vivida!, sim morrida
No tédio e no desespero,
No espanto e na solidão,
Que a corda dos derradeiros
Desejos dos desgraçados
Por noites do tal suão
Já varias vezes tentara
Meus dedos verdes suados...
Senão quando o amor de Deus
Ao vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda,
Confia uma sementinha
Perdida entre terra e céus,
E o vento a trás à varanda
Daquela
Minha
Janela
Da tal casa tôsca e bela
À qual quis como se fôra
Feita para eu morar nela!
Lá no craveiro que eu tinha,
Onde uma cepa cansada
Mal dava cravos sem vida,
Nasceu essa acàciazinha
Que depois foi transplantada
E cresceu; dom do meu Deus!,
Aos pés lá da estranha casa
Do largo do cemitério,
Frente aos ciprestes que em frente
Mostram os céus,
Como dedos apontados
De gigantes enterrados...
Quem desespera dos homens,
Se a alma lhe não secou,
A tudo transfere a esperança
Que a humanidade frustrou:
E é capaz de amar as plantas,
De esperar nos animais,
De humanizar coisas brutas,
E ter criancices tais,
Tais e tantas!,
Que será bom ter pudor
De as contar seja a quem for!
O amor, a amizade, e quantos
Mais sonhos de oiro eu sonhara,
Bens deste mundo!, que o mundo
Me levara,
De tal maneira me tinham,
Ao fugir-me,
Deixando só, nulo, vácuos,
A mim que tanto esperava
Ser fiel,
E forte,
E firme,
Que não era mais que morte
A vida que então vivia,
Auto-cadáver...
E era então que sucedia
Que em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Aos pés lá da casa velha
Cheia dos maus e bons cheiros
Das casa que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
- A minha acácia crescia.
Vento suão!, obrigado...
Pela doce companhia
Que em teu hálito empestado
Sem eu sonhar, me chegara!
E a cada raminho novo
Que a tenra acácia deitava,
Será loucura!..., mas era
Uma alegria
Na longa e negra apatia
Daquela miséria extrema
Em que vivia,
E vivera,
Como se fizera um poema,
Ou se um filho me nascera.
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
MOMENTOS .......
...com António Gedeão
POEMA DO FUTURO
Conscientemente escrevo e, consciente,
medito o meu destino.
No declive do tempo os anos correm,
deslisam como a água, até que um dia
um possível leitor pega num livro
e lê,
lê displicentemente,
por mero acaso, sem saber porquê.
Lê, e sorri.
Sorri da construção do verso que destoa
no seu diferente ouvido;
sorri dos termos que o poeta usou
onde os fungos do tempo deixaram cheiro a mofo;
e sorri, quase ri, do íntimo sentido,
do latejar antigo
daquele corpo imóvel, exhumado
da vala do poema.
Na História Natural dos sentimentos
tudo se transformou.
O amor tem outras falas,
a dor outras arestas,
a esperança outros disfarces,
a raiva outros esgares.
Estendido sobre a página, exposto e descoberto,
exemplar curioso de um mundo ultrapassado,
é tudo quanto fica,
é tudo quanto resta
de um ser que entre outros seres
vagueou sobre a Terra.
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