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segunda-feira, 19 de março de 2012
A MEU PAI !
Hoje senti saudades de ti ... pai ...
saudades de te ter , de te abraçar,
hoje senti saudades de ti ...
saudades de te ver sorrir ...
saudades da tua face e teus olhos...
hoje senti saudade de te olhar...
saudades da tua voz...
mas senti saudades de te ouvir falar,
hoje senti saudades de ti ...
de te ver a trabalhar,
de te ouvir rir, pena não te ver envelhecer ...
ver-te chegar a casa, era uma casa cheia...
hoje olhei-me ao espelho, pensei em ti...
no verde de meus olhos vi saudade,
vi-te dentro do meu olhar, fiquei ali...
e fiquei nos meus olhos à vontade ...
pedi então a Deus p'ra adormecer
que pudesse ver-te, ainda que a sonhar
não pude dormir, pai ,
não pude... que a saudade
foi mais forte do que eu, pôs-me chorar...
(TB)
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
DEIXA O TEMPO FAZER O RESTO .....
Deixa o tempo fazer o resto
fechar janelas
aplacar os barcos
recolher os víveres
semear a sorte
acender o fogo
esperar a ceia
abre as portas: lê a luz
a sombra, a arte do passarinheiro
com três paus
fazes uma canoa
com quatro tens um verso,
deixa o tempo fazer o resto.
(Ana Paula Inácio)
DO QUE ME LEMBRO
Lembro-me da música dos lugares a oeste
dos planos para esse reino amado
que pretendemos tanto tomar de assalto
antes dos brados do fogo
Mas as minhas mãos traziam já
uma sina mais escura, nem a noite
Qualquer penumbra serviu
ao meu coração oculto
a miséria do Inverno
o treino dos falcões nas escarpas
a glória iludida
em que se consumiu o tempo
José Tolentino Mendonça (in «Longe não sabia», Presença)
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
MOMENTOS ...... DE INCERTEZA !!!!
Incerteza
Fui da vida
à poesia
fui da poesia
à vida
que caminho
terá no final
sido o melhor?
Erich Fried
domingo, 18 de dezembro de 2011
DIA DE NATAL !!
Dia de de Natal com António Gedeão...
Dia Natal
Hoje é dia de era bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.
De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprado.
Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.
Ah!!!!!!!!!!
Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.
Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.
Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.
Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
VENTO DA SERRA
...... com Manuel Poejo
Que ondas faz o vento pela seara de oiro....
Vai em remoinhos, corre à desfilada,
Como vê maduro todo o trigo loiro ,
Próxima colheita daquele tesouro,
Parece medi-lo só de uma braçada
Mas depois nas eiras, voltará o vento
Sacudindo as palhas ,a limpar o grão,
A bailar em roda de contentamento,
E a contar os bagos sem um desalento
Para saber ao certo quantos moios são.
Andará nas serras como um torvelinho ;
Subirá aos montes de maior altura ,
A soprar nas velas brancas , do moinho
Espreitando à porta , para contar baixinho
Quantos são os sacos de farinha pura
E andará gemendo por entre pinheiros ;
-Mal vento sabe que uma dor consome
É que o trigo , fica preso nos celeiros ;
E há tantos mendigos , velhos caminheiros
A dormir sem cama e a morrer à fome !!!
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
AMOR ,,,, OU QUIMERA !?
Se tu quiseres,posso guiar-te na vida
Descobrir caminhos, que eu não sei ...
Na estrada por mim desconhecida
Seguiremos juntos , amor, levar-te -ei
Posso levar-te aonde eu desconheço, posso levar-te
Por bem a sós, levado por minha mão..
Mostrar-te-ei sentimento a minha arte
Eu conheço amor,carinhos e gratidão.
Na escritura do destino,já assim ditou
Quem foi na mesma,na vida nos juntou ..
Feliz encontro , uma história desconhecida
Que o destino nunca te afaste de mim
Seguir-te na missão . dever até ao fim
Quem foi que ditou assim , a nossa vida .
Poema de 1/08/79
Por alguma razão o fiz e por outras o desfiz .............
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
DESTA VEZ APENAS SINTO ........
Desta vez .....
me causa muitas sensações..
sensações que ainda não havia sentido....
que não sei onde estavam...
que não sei de onde vieram...
nunca as tinha visto por aqui...
algo parecido com expolosão de sentimentos que estavam guardados em algum lugar...
guardados a sua espera quem sabe...
e...
que cada dia ficam maiores....
que cada dia crescem mais..
que cada dia aumentam mais.....
procuro explicação...tento entender...
pra variar sempre em busca de explicações para tudo...
e reviro meu pensamento...
reviro meu coração...
reviro os lugares mais profundos e distantes dentro de mim e não encontro...
talvez desista de procurar...desista de entender...
apenas me importarei em sentir...
sentir essas sensações....
sentir esses novos sentimentos...
me vejo diferente de tudo que um dia já fui...
me mostra agora alguém que eu ainda não conhecia e nem sabia que pudesse existir...
e desta vez não me assusto...
desta vez gosto do que vejo...
desta vez gosto do que sinto...
desta vez não estou com medo...
desta vez...apenas sinto...
quinta-feira, 7 de julho de 2011
O MENINO !
O Menino não entrou .......
O menino não entrou na roda
das crianças às crianças "brancas"
que brincavam todas numa roda viva
de canções festivas, gargalhadas francas...
O menino não entrou na roda.
E chegou o vento junto das crianças
e bailou com elas e cantou com elas
as canções e danças das suaves brisas,
as canções e danças das brutais procelas.
O menino não entrou na roda.
Pássaros, em bando, voaram chilreando
sobre as cabecinhas lindas dos meninos
e pousaram todos em redor. Por fim,
bailaram seus vôos, cantando seus hinos ...
O menino não entrou na roda.
"Venha cá, menino, venha cá brincar"
disse um dos meninos com seu ar feliz.
A mamã, zelosa, logo fez reparo;
o menino já não quis, não quis ...
O menino não entrou na roda
das crianças "brancas". Desolado, absorto,
ficou só, parado com olhar cego,
ficou só, calado com voz de morto.
(editado por mim)
( Bessa victor )
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
REVOADA DE SENTIMENTOS...... !!!

Voltámos finalmente
já quebradas
nossas débeis asa desoladas,
após a inclemente,
a inglória ascensão pelos espaços,
em demanda ardente ,
da perfeição espiritual,
como quem ergue os seus braços
na sede, que o devora , de Ideal
E nesta torturante
revoada
que trazemos de novo? Que sonhada
beleza triunfante ?
Foi inútil o voo pelas alturas...
Anda tão alta e distante
a nobreza da poesia
de linha sóbria a puras,
que não vimos a estrela fugidia.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
"HOMEM BOM"

Algumas perguntas a um “homem bom”
Bom, mas para quê?
Sim, não és venal, mas o raio
Que sobre a casa cai também
Não é venal.
Nunca renegas o que disseste.
Mas que disseste?
És de boa fé, dás a tua opinião.
Que opinião?
Tens coragem.
Contra quem?
És cheio de sabedoria.
Para quem?
Não olhas aos teus interesses.
Aos de quem olhas?
És um bom amigo.
Sê-lo-ás do bom povo?
Escuta pois: nós sabemos
Que és nosso inimigo.
Por isso vamos
Encostar-te ao paredão.
Mas em consideração
Dos teus méritos e das tuas boas qualidades
Escolhemos um bom paredão e vamos fuzilar-te com
Boas balas atiradas por bons fuzis e enterrar-te com
Uma boa pá debaixo da terra boa.
(Bertolt Brecht)
domingo, 16 de janeiro de 2011
O PRIMEIRO BEIJO !!

Primeiro Beijo
Ele chegou de mansinho,
Fitando-a com carinho,
Sorriso doce no olhar...
Era o prenúncio, o sinal,
De quem queria, afinal,
Seu desejo revelar...
Primeiro, timidamente,
Depois, ansiosamente,
Apertou-a junto a si,
Procurou, ávido, sua boca,
Deixando-a inerte, louca,
Lábios quentes, de rubi...
Ondas fortes, poderosas,
Aromas de flor, de rosas,
Um instante divinal...
Momentos bons de magia,
Gosto puro de ambrosia,
Arrebatando o casal...
Ah!... meu sonho de juventude!...
Feliz foi minha atitude
De me entregar a esse amor,
Sem restrição e sem pejo,
A partir daquele beijo,
Que não esqueço o sabor!
terça-feira, 16 de novembro de 2010
BEIJO AO LUAR

Joguei um beijo ao luar
Ao teu olhar sedutor
No teu rosto foi parar
Com sentimento de amor
Quando te vejo passar
Sinto rosar minhas faces
O coração palpitar
Como se tu me beijasses
A ti me sinto enlaçado
Através de beijos teus
Não os troco nem por nada
Para que sejam só meus
Ao luar da noite bela
Minha alma flutua
Se te vejo da janela
Atiro beijos para a rua
Os meus suspiros são beijos
Que eu quero acalentar
Teus lábios são meus desejos
Quando os beijo ao luar
domingo, 3 de outubro de 2010
E AGORA,JOSÉ.....!!?

Olho e sigo um sinal..
Já não sou eu quem caminha
Sou levado por meus olhos
E guiado por meu coração
Que é o meu mestre
Sim, o meu humilde coração
Uma luz ao longe
Faz-me crer
Que não estou longe
Ou ao menos sinto
Que algo me chama
Para um renascer
A noite fascina...
São momentos de sedução
E o brilho da lua cheia
Que encanta sem pedir
Deixa-me tão fascinado
Entre sentir e o seguir
São sentimentos escondidos
Que se soltam pelo ar
São sonhos que se achavam perdidos
E que voltam a aflorar
Afloram como se fossem
Nuvens ao luar
Continuo em meu caminho
Que me deixa sem pensar
Entrego ao meu coração
A luz do meu olhar
E descubro na imensidão
Um lugar para ficar
Guiado por meu coração
E iluminado por meu olhar
Chego a este lugar
Que me oferece
Sem eu esperar
Um outro coração
Que me espera sem cansar
terça-feira, 7 de setembro de 2010
ÉS O SONHO POR SONHAR .....!

Na graciosidade de liras
sinto-te
- sem nunca me teres tocado!
Purifico meu corpo, mãos e lábios
e vejo-te sim
- aqui a meu lado
- sem nunca te ter tocado!
Não serei tudo
o que querias que fosse
apenas….
nos segredos que não partilhamos
ainda!
És meu sonho por sonhar
toque por tocar
beijo por beijar…
Serei
diáfana, inventada
no resto do teu mundo.
Guardo gestos matizados
promessas amordaçadas
gritos não escutados…
por acontecer
ainda!
Aos grandes amores sonhados... um , dois !??
sábado, 28 de agosto de 2010
SONATA

Sonata
Sem batuta, sem maestro. De improviso. Com uma abertura de aromas, no silêncio das vozes. Seguindo uma partitura pegada, no seu início, de apassionatos, andamentos lentos, cadência ritmada. Compasso binário.
Uma melodia a quatro mãos. Dedilhando nos corpos em que identificamos claves e pautas, bemóis e sustenidos, agudos e graves. Quais caixas de ressonância. Que de facto são.
Mergulhamos nas variações e inventamos arranjos, novos acordes, suscitamos diferentes acústicas. Sempre com bis no final de cada refrão. Prolongado a coda de cada andamento.
E prosseguimos em crescendos, recusando calar os agudos e os graves, numa escala que já não dominamos. Numa fantasia em que fica à prova o nosso virtuosismo.
Em tudo a sintonia entre o desejo e a emoção. Até desaguarmos num aleggro maestoso, corpos exaustos, mas nunca rendidos.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
SOLDADOS DE DEUS

Quando transformo a guerra em
poesia levo a meus soldados a
ilusão que vale apena morrer
por um ideal.
Falo sobre os revés da vida
e que só quando eu morrer
é que irei ser imortal.
Terrível seria um soldado amar
a própria vida.
Sou um soldado sou sim, e como
eu tem vários outros iguais a mim.
Lutei venci e hoje cuido dos meus
quem luta a favor da vida é chamado
soldado de Deus.
sexta-feira, 9 de julho de 2010
QUANDO ESTOU AO PÉ DE TI ..... QUE FELIZ DESTINO O MEU ..... !?

Que Feliz Destino o Meu
Se Deus te deu, com certeza,
Tanta luz, tanta pureza,
P'rò meu destino ser teu,
Deu-me tudo quanto eu queria
E nem tanto eu merecia...
Que feliz destino o meu!
Às vezes até suponho
Que vejo através dum sonho
Um mundo onde não vivi.
Porque não vivi outrora
A vida que vivo agora
Desde a hora em que te vi.
Sofro enquanto não te veja
Ao meu lado na igreja,
Envolta num lindo véu.
Ver então que te pertenço,
Oh! Meu Deus, quando assim penso,
Julgo até que 'stou no céu.
É no teu olhar tão puro
Que vou lendo o meu futuro,
Pois o passado esqueci;
E fico recompensado
Da perda desse passado
Quando estou ao pé de ti.
António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo..."
quarta-feira, 9 de junho de 2010
A PEDRA DA CALÇADA

Arrancada,desprezada
Uma pedra da calçada,
Lembrou o mundo ruim
E pôs-se a contar assim
Os transes da vida sua:
"Eu sou de terras distantes,
Onde as fontes sussurrantes,
Pela noite velha adormecem;
E vim para a cidade enorme,
Onde nem a noite dorme
e os homens não se conhecem1
Sobre mim, passaram nobres;
Sobre mim,dormiram pobres;
Vi risos maus; dores sublimes,
Salpicaram-me,no entanto,
Com tristes gotas de pranto
E negro sangue de crimes
Eu vi riquezas mentidas,
Eu vi misérias escondidas,
Vi honra e devassidão;
Debaixo de pés descalços
Dos pobrezinhos sem pão"
E aquela pedra sombria,
Muito negra,muito fria
Com um desgosto profundo,
Deixou-se ficar ali:
Não por vergonha de si
mas por vergonha do Mundo
sábado, 5 de junho de 2010
Saudades
Saudades
Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida.
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
eu sinto saudades...
Sinto saudades de amigos que nunca mais vi,
de pessoas com quem não mais falei ou cruzei...
Sinto saudades da minha infância,
do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro,
do penúltimo e daqueles que ainda vou ter, se Deus quiser...
Sinto saudades do presente,
que não aproveitei de todo,
lembrando do passado
e apostando no futuro...
Sinto saudades do futuro,
que se idealizado,
provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser...
Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei!
De quem disse que viria
e nem apareceu;
de quem apareceu correndo,
sem me conhecer direito,
de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.
Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito!
Daqueles que não tiveram
como me dizer adeus;
de gente que passou na calçada contrária da minha vida
e que só enxerguei de vislumbre!
Sinto saudades de coisas que tive
e de outras que não tive
mas quis muito ter!
Sinto saudades de coisas
que nem sei se existiram.
Sinto saudades de coisas sérias,
de coisas hilariantes,
de casos, de experiências...
Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia
e que me amava fielmente, como só os cães são capazes de fazer!
Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar!
Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar,
Sinto saudades das coisas que vivi
e das que deixei passar,
sem curtir na totalidade.
Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que...
não sei onde...
para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi...
Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades
Em japonês, em russo,
em italiano, em inglês...
mas que minha saudade,
por eu ter nascido em Portugal,só fala português, embora, lá no fundo, possa ser poliglota.
Aliás, dizem que costuma-se usar sempre a língua pátria,
espontaneamente quando
estamos desesperados...
para contar dinheiro... fazer amor...
declarar sentimentos fortes...
seja lá em que lugar do mundo estejamos.
Eu acredito que um simples
"I miss you"
ou seja lá
como possamos traduzir saudade em outra língua,
nunca terá a mesma força e significado da nossa palavrinha.
Talvez não exprima corretamente
a imensa falta
que sentimos de coisas
ou pessoas queridas.
E é por isso que eu tenho mais saudades...
Porque encontrei uma palavra
para usar todas as vezes
em que sinto este aperto no peito,
meio nostálgico, meio gostoso,
mas que funciona melhor
do que um sinal vital
quando se quer falar de vida
e de sentimentos.
Ela é a prova inequívoca
de que somos sensíveis!
De que amamos muito
o que tivemos
e lamentamos as coisas boas
que perdemos ao longo da nossa existência...
(Clarice Lispector)
segunda-feira, 31 de maio de 2010
DA VIDA AO SONHO


II
Vem!.. Entrelaça as tuas mãos nas minhas,
Vamos descendo pelo vale em flor,
Andam fazendo o ninho as andorinhas...
Quero falar-te sobre o nosso amor!
Como é ditoso,agora,ser pastor
Dum rebanho que é nosso e acarinhas!
Ser dono destes campos ao redor,
Jamais frutificam se não vinhas!
Beber contigo destas meigas fontes!
Contemplar estes magos horizontes!
Ouvir do merlo os cantos joviais!
Beijar-te doidamente...e,com desvelos,
Engrinaldar depois os teus cabelos
Com mimosas flores dos laranjaias !
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