Bom, mas para quê? Sim, não és venal, mas o raio Que sobre a casa cai também Não é venal. Nunca renegas o que disseste. Mas que disseste? És de boa fé, dás a tua opinião. Que opinião?
Tens coragem. Contra quem? És cheio de sabedoria. Para quem? Não olhas aos teus interesses. Aos de quem olhas? És um bom amigo. Sê-lo-ás do bom povo?
Escuta pois: nós sabemos Que és nosso inimigo. Por isso vamos Encostar-te ao paredão. Mas em consideração Dos teus méritos e das tuas boas qualidades Escolhemos um bom paredão e vamos fuzilar-te com Boas balas atiradas por bons fuzis e enterrar-te com Uma boa pá debaixo da terra boa.
Quando vais Zéi ,quando partes e para onde !?? Pergunta que todos os vizinhos e amigos me fizeram ,antes de eu partir para Angola,foi um tempo de despedidas e de recomeços de sacrifício e de esperança. Augusto mobilizaram-me para Angola eu não desejava ir , será que o meu Batalhão ainda parte, era o tempo em que se reivindicava , nem mais um soldado para as províncias ultramarinas..... Zé vais conhecer outras paragens , quando chegares me dirás que valeu apenas ...grande motivação O Augusto tinha destas coisas , fiquei mais tranquilo ...ía à aventura o que tinha eu a perder ....que não tivesse perdido havia bem pouco tempo . Todo pessoal fez-me prometer quando partisse se apresenta-se para as despedidas .... mesmo na contrariedade de vizinhança da cuscuvelhice de dizer bem o mal deste ou daquele vizinho ... era hora da verdade , verdade que era de apoio e de amizade . Percorri toda a minha rua ..trazia na mão a esperança e no coração a gratidão daqueles que me viram nascer ,daqueles que se por acaso me portasse mal me dariam uma bofetada. dos mesmos que me davam guloseimas e tinham a pretensão de me dar bons conselhos !! Eles os vizinhos os amigos !! Chegou-se a hora saco cheio e de magala vestido , pronto para enfrentar uma torrente de emoções desconhecidas ..e pimba dobrei o cabo Bojador e como Alentejano tinha que ir mais longe ..porque era já ali...... Deixei para trás algumas preocupações .. deixei-o só ,demasiadamente só !! e com a casa vazia ... de presença . Aterrei ... nessa terra vermelha . Percorri caminhos para chegar , o tempo foi o balsamo e o lugar o fascínio .. Não é que os chouriços e morcelas de Sousel satisfizeram toda minha ansiedade .... Levei para longe solidariedade de todos.. e trouxe a satisfação de um só !!! (Foto superior BOTO)
Lar, doce lar! A verdade é que era um alívio chegar a casa, mal passado aquele dia de trabalho, mal passada aquela viagem de regresso . E tudo para percorrer uns míseros quilómetros. Mas já estava habituado . De caminho para casa ainda deitou umas cartas no correio de que faziam parte das contas que o iriam ajudar a descer o já magro saldo bancário. Enfim, finalmente, lar, doce lar, e aquele sofá mole da sala para descansar o espírito e o físico desta vida moderna sem modernice nem qualidade nenhuma. Para descansar o espírito e o corpo da rotina para o trabalho e do trabalho para casa, do ordenado pequeno e da falta de dinheiro, do jantar que ainda era preciso comprar e fazer, das responsabilidade de criar os filhos , dos filhos que não tardariam a chegar, da atenção que lhe não dava e queria dar, desta insatisfação doentia que se fingia esquecer, desta vontade tresloucada de bater, de chorar, gemer. Desta vontade de estar ali, como ele estava, sozinho, no sofá mole da sala sem nada lembrar.
Oh pai, estás doente? Não, filho, estou só cansado. Vai fazer os trabalho de casa que eu vou ali ao supermercado e já venho.
Agora era preciso preparar o jantar. Ele, não, ou fazia uma coisa de cada vez ou saía asneira. Ainda por cima - que raio! - conseguir ver o telejornal era utópico. Nessa precisa altura estaria ele a tentar sobreviver às dificuldades do costume, a improvisar aqui e acolá. É que a comida, nas mãos dele, tinha aquela tendência para o desequilíbrio, ora ficava desfeita ora mal cozida, umas vezes quase sem sal outras apaladada de mais. Salvavam-se os clientes que não eram muito esquisitos e, se o fossem, lá no bairro havia uma tasca onde serviam comida. Que diabo, um homem não pode ter jeito para tudo!...
Claro que estava doente! Não era para estar? Doença sem sintomas externos palpáveis, ilegível em todas as análises e radiografias. Mas que o minava, disso não tinha dúvidas. Que lhe sorvia as forças, as energias, qual gigantesca e tenaz sanguessuga. Também, quem não andava doente na correria desta sociedade vibrante de novas e espantosas tecnologias pagas em prestações quotidianas de agonia e cansaço? O povo estava doente. Sim, o povo, pois uma minoria vivia com aquela qualidade de vida que ele, invejava. Com conforto, riqueza e até excessos. Mas esses não eram o espelho da humanidade. É verdade que havia pior, gente ao pé de quem ele até era um felizardo. Que nos quatro cantos do mundo morriam homens, mulheres e crianças entre guerras, fomes, epidemias e brutalidades. Que a eterna televisão ligada mostrava essas realidades nos intervalos das ficções. Mas a gente toma lá sentido, na distracção entre o prato e a sobremesa, se aquilo é jornal, é realidade, ou ainda uma parte do filme de acção e aventuras. A verdade é que o resto do mundo fica a anos-luz de todas as cozinhas aconchegadas, quentes de vapor e cheiro de comida, em que à noite, cansados, o pai, a mãe e os filhos comem bifes com batatas fritas e remoem as suas dores e os seus fastios, tão pessoais e tão grandes que mal lhes cabem no coração e na alma.
Aproveitei para fazer uma análise profunda às minhas mais ocultas entranhas. Confesso que estão tão ocultas que apenas as vislumbrei numa névoa longínqua. Depois de muito pensar, repensar e tornar a pensar não se fez luz, porque quando acabei de pensar era de noite. Sem raciocínios elaborados, pois se o fizesse podia sobrecarregar a memória do PC e estoirar com a máquina, cheguei a algumas conclusões inconcludentes.
Aqui vão alguns pensamentos aleatórios:
- Sei quem sou (embora às vezes ande por aí perdido), sei o quero ( embora não o consiga obter) e sei para onde vou (embora não queira lá chegar). - Quando o caminho se iluminava para eu o prosseguir, as dúvidas levantaram-se, e aqui, encontrei a resposta a algumas questões. - Na sala de espera do conhecimento ainda há dúvidas, mas menos do que outrora.
- Descobri que mesmo não escrevendo nada de nada .... ainda há que leia ou não ! Dei comigo pensar se é que penso ...nas lamechas que para aqui escrevi ou não,antes pelo contrário ... estou a ficar sem motivações ...... Obrigado a quem de direito !
Que a força do medo que eu tenho, não me impeça de ver o que anseio. ... Que a morte de tudo o que acredito não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio...
Que a música que eu ouço ao longe, seja linda, ainda que triste...
Que a mulher que eu amo seja para sempre amada mesmo que distante. Porque metade de mim é partida, mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor, apenas respeitadas, como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos.
Porque metade de mim é o que ouço, mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço.
E que essa tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que eu penso, mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto, um doce sorriso, que me lembro ter dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba.
E que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é platéia e a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor, e a outra metade... também
Ó Zeii vai-te deitar amanhã quando te levantares vens abrir as prendas do menino JESUS .... lá deixava eu os sapatos à chaminé ...... e ficava todo contente por ser NATAL ... dos pobres !!! Quem passe por aqui desejo-lhe um BOM NATAL e um PRÓSPERO ANO NOVO !!!
Em cada nova trilha uma surpresa... A cada busca um recomeço... E nos desafios escondidos no tempo... No verso nas trevas sem fim... Eu fazia minha pausa... E aos anjos minha prece...
Sem perceber tantos conflitos... Que me procuravam... E a mim se apresentavam sem eu pedir...
Na contemplação do universo... Da roda da vida eu cai... Refletindo minha alma... Nos atropelos do dia-a-dia... Eu crescia...
Fiz-me senhora de desejos... E no amor um único olhar... Agora deixo tudo fluir... Neste maravilhoso mistério... Que é sobreviver... E em versos escrevo... Minha poesia ainda juvenil... Vania Staggemeier
Velha como o passado, esta tradição alentejana de matar o bacorinho preto. Matança que assegurava a mantença pela primavera, verão e outono. No inverno seguinte outro sacrifício haveria. Só mesmo as famílias mais deserdadas o não faziam e, infelizmente, não eram poucas. Os outros, era conforme as posses, ia desde as quatro arrobinhas do remediado às muitas arrobas dos vários bichos sacrificados na casa do lavrador. Cumpria-se assim, anualmente, o ritual da matança em igualdade de rotina e entusiasmo a par de todas as outras tradições, - o alavão dos queijos, as filhoses do carnaval, o borrego da Páscoa, a quinta-feira da espiga, a adiafa das colheitas e a prova do vinho novo -. Após apalavrar o negócio do bicho e aprazar o dia do sacrifício, convidava-se uma roda de familiares e amigos com fama de entendedores no assunto. Amolavam-se as facas tendo especial atenção na sangradeira, acarretavam-se os tojos, dava-se uma vista de olhos pelo estado da banca e do chambaril. Areava-se o tacho de cobre que, no resto do ano, fazia vista na estanheira. Tinha-se em especial atenção o aprovisionamento do sal, bem como a limpeza do lugar onde ele iria ter a função de conservante, a salgadeira. E lá chegava o ansiado dia, geralmente um domingo. A alvorada era cedo, até para os gaiatos que de qualquer maneira quase não tinham pregado olho, tal era a excitação. A mesa do mata-bicho era posta ainda com o lusco-fusco, e não lhe faltava a aguardente e as passas de figo. O resto do aparato, da banca às facas, dos alguidares aos tachos, estava tudo impecavelmente arrumado como se de uma sala de cirurgia se tratasse. A divisão de tarefas, fazia parte de um acordo estruturado há muitas vidas. Cabia aos homens o sacrifício, o musgar e o lavar, o desmanchar do animal e o separar das peças grandes. As mulheres, tinham de cor a sua labuta, aparar o sangue, lavar e preparar as tripas, fazer os torresmos e a banha mais a tarefa incontornável de tratar das comedias para o afago dos estômagos. Migar a carne do alguidar, temperar e posteriormente fazer os enchidos eram geralmente tarefas também suas, segundo a boa mão e o reconhecido saber fazer.
O ponto alto, era pelo meio da manhã no tirar da bucha. Molejas, febras e outras peças entremeadas, eram assadas no lume que aquecia o tacho para o fabrico da banha. A mastigação destas premissas, era saboreada com o acompanhamento de copos de cinco, de tinto ou branco conforme o gosto. Ao almoço, entre outros comeres, amesendava-se uma belíssima rexina, prato tradicional comum a todo o Alentejo, divergindo apenas de lugar para lugar o seu chamamento, - no alto, rexina, no baixo, serrabulho ou moleja.