domingo, 31 de outubro de 2010

LUAR DE AGOSTO !!


Nas belas noites enluaradas de Agosto
Toda a terra prateada com o seu esplendor
Ouvem-se linda musas, em trovas de amor
Lindos sorrisos seduzindo teu rosto

Agosto, da suave brisa perfumada
Caindo sobre vastos roseirais, em flor
No silêncio da noite, ecos de trovoada
E ao deslizar , de uma lágrima orvalhada

Depois de termos sonhos em realidade
Luzente .espelho da lua,onde me vejo
Ao fazer uma prece, sinto tal desejo
Que a noite linda,surge a claridade

E no calar da noite,beijo o teu rosto
À luz dum pirilampo, sinto o teu calor
Murmuram meus lábios,ao chamar-se amor
Nas belas noites,enluaradas de Agosto

( De um poeta popular ..quem saiba que diga !!)
Estamos no Outono triste e pardacento ..dou vos uma noite de brilho e talento de quem
fez estes versos!!

terça-feira, 26 de outubro de 2010

MEMÓRIAS !!!!



DIA 24 de ABRIL de 1974
PROGRAMA I
12.45 - Desenhos animado»
13.00 - Fronteiras do amanha
13.15 - «Agulhas e alfinetes»
13.45 - Telejornal
14.00 - Feminino singular
14.20 - Logo à noite

CICLO PREPARATÓRIO TV
14.40 - Língua portuguesa 2º ano
15.05 - Matemática 1º ano
15.30 - Desenho 2º ano
16.00 - Educação física 1º ano
16.25 - Hist. e geog. de Portuga 1º ano
16.50 - Matemática 2º ano
17.25 - Língua portuguesa 2º ano
Ï7.55 - Eurovisâo
Futebol - Transmissão directa do jogo Magdeburgo-Sporting para a «Taça das Taças"
19.45 - Telejornal
20.00 - Perspectiva
20.45 - Vamos jogar no Totobola
21.00 - Uma família vulgar
21.30 - Telejornal
Boletim meteorológico
22.05 - Concerto
Trio para piano, violino e violoncelo, op. 11, de Beethoven, interpretado pelo Trio Stern
22.30 - A família Strauss
"Emília", por David Reid, com Eric Woofe, Stuart Wilson, Anne Stallybrass, Barbara Ferris, Derek Jacobi, Chritopher Benjamim e David de Keyser. Música pela Orq. Sinf. de Londres
23.45 - Telejornal

PROGRAMA II
20.30 - «Agulhas e alfinetes»
21.00 - Fronteiras do amanhã»
21.10 - Desenhos animados
21.30 - Telejornal
Boletim meteorológico
22.05 - «O Aventureiro»
22.40 - Encontro com o mundo"

Diário de Notícias (24 de Abril de 1974).
Cartaz dos cinemas em 25 de Abril de 1974

ALVALADE
«A rainha do karatê», de Chien Lung
Preço de 10$00 a 30$00.

APOLO 70
«American graffiti», de Georges Lucas
Às 00.00 horas: «O Candidato», de Michael Ritchiie
Preço de 7$50 a 30$00

AVIS
«Malteses, burgueses e às vezes», de Artur Semedo
Preço de 15$OO a 27$50.

BERNA
«Jesus Cristo superstar», de Norman Lewison
Preço de 20$00 a 35$OO

CASTIL
«Segredos proibidos», de Philip Saville
Preço de 20$00 a 35$OO

CINEARTE
«Corrida selvagem», de Burt Topper
Preço de 12$50 a 22$50

CONDES
«O magnifico» de Phililipp de Broca
Preço de 12$50 a 27$50

ÉDEN
«Cantinflas às ordens de vosselência», de Miguel M. Delgado
Preço de 12$50 a 27$50

ESTÜDIO
«Ritual», de Ingmar Bergman
Preço de 20$00 a 27$50

ESTÜDIO 444
«O porteiro», de Bernard le Coq
Preço de 17$50 a 25$00

EUROPA
«Almas a nu», de Simone Signoret
Preço de 15$OO a 22$50.

IMPÉRIO
«Um homem de sorte», de Lindson Anderson
Preço de 15$OO a 27$50.

LONDRES
«O convite», de Claude Goretta
Preço de 20$00 a 35$OO

MONUMENTAL «Harry, o detective em acção», de Ted Post
Preço de 20$00 a 30$00

MUNDIAL
«O nosso amor de ontem», de Stark
Preço de 17$50 a 30$00

ODEON
«Cruel vingador», de Chang Chen
Preço de 17$50 a 25$00

OLYMPIA
«Fabricante de loiras explosivas», de Mário Bava
Preço de 11$00 a 15$00

PATHE
«Conde Yorga Vampiro», de Bob Kelllan
Preço de 20$00 a 30$00

POLITEAMA
«Eusébio, o panterara negra», de Juan de Orduna
Preço de 10$00 a 22$50

ROMA
«O nosso amor de ontem», de Stark
Preço de 17$50 a 27$50

ROXY
«Até ao amanhecer», de Peter Collmson
Preço de 20$00 a 30$00

SATÉLITE
«Cerimônia solene», de Kagisa Oshima
Preço de 20$00 a 30$00

SÃO JORGE
«Tchaikovsky, delírio de amor», de Ken Russel
Preço de 17$50 s 37$50

TIVOLI
«A golpada», de George Rey Hill
Preço de 12$50 a 30$00

VOX
«O homem das solas rotas», de Cliff Owen
Preço de 20$00 a 35$00

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

CARTAS DE AMOR !


Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas)
Fernando Pessoa

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

CONVERSAS DE AMIGOS


-Surpreendes-me !?
Porquê !?
É impossível !
Lá estás tu a impor limites !
Sabes que não há limites quando se acredita ....
Eu creio..
Isso é conversa tua ..não te limites abre a o teu coração .. .. ou fala Comigo !
Por vezes faço-o , mas CONTIGO eu não te vejo ...
Mas escuto-te ..
Não me parece .. ou então trocas-Te-me as voltas
Tu é que as trocaste..
Eu Porquê ... !?
Indiquei-te o caminho . Voltei as "COSTAS" e tu procedes como a maioria ...
Mas ...
Mas qual mas... fundamenta o teu mas !!
A nossa existência não é uma forma !?
Não... o caminho que te escolhi era para seres tu ..
Não compreendo !??
Claro ...
Pensas-te de forma errada para a tua maneira de ser .. racionalizas-te,procuras-te onde a tua felicidade não estava .. cansaste-te ocupas-te o teu tempo em prol da tua profissão .esqueceste-te de viver ..
Será !?
É, foste esquecendo de MIM .só quando precisavas é que te lembravas ... dizias que estava ZANGADO contigo .que o CUMPADRI não ma liga nenhuma -...
E ESTAVAS LÀ !???
Sempre estive ...mesmo que não rezes .mas por vezes lembras-te o que já não é mau ..
E porque tive que passar todas a vicissitudes desta vida !??
São uma aprendizagem !
Dispensava ... !
Não amigo não é assim ... o teu paraíso será ... os outros o conquistarão ou não !!
Tudo o que pediste te foi oferecido ... espiritualmente claro, e não me venha com poder dinheiro ou outras coisas que são efémeras.
Mas o meu "amor próprio" foi por vezes abalado.. porquê!?
Tinhas que acreditar sempre ...
Em TI !??
Principalmente ... e em ti não és melhor nem pior que os outros !
Bolas, ÉS directo !
Quero o teu melhor !
E o teu melhor és tu ... aguarda , prevalece ,diverte-te com a tua vida !!!
Desafio-te sempre ?
É mais um aquele que me surge agora !?
É .....
ÁH,não contabilizes , arquiva o que já fizeste .... e vive o que está a fazer !
Eu mandei-te um ANJO não o recuses ....!!!

terça-feira, 12 de outubro de 2010

SINAIS DA VIDA !!!


Chamaram-te ao telefone.....
Quem era ... só disseram que queriam falar com o Furriel Piteira !!!
Que mudaria, a viagem seria talvez outra !? coincidências ou não o que é facto é que esse telefonema ainda hoje não sei de quem foi .
Privilegiado como eu fui ,meus camaradas estavam bem mais longe de casa que eu ,saía do Regimento de Cavalaria e logo ao virar da "esquina" era a minha.
Já muito doente era essa a minha preocupação , perguntei à minha mãe se tinha telefonado , não, não fui eu,fiquei mais sossegado ... mas partir daí o cenário foi diferente ,para pior.
Afinal estava no meu mundo.... da cidade que mais gosto, dos amigos ... da loja do SrºJosé Redondeiro o mesmo que me facilitou a compra das minhas primeiras calças de ganga Lois , que me dava boleia na "Mercedes" que teve ou ainda tem ... nas moças que tinha como empregadas ... principalmente a Joana com que eu simpatizava mais,namoro de tropa , não se!??
Porque " carga de água" fui associar um simples frame de um filme e lembrar isto tudo, andava dividido ..... eu tinha que seguir o meu caminho ,mas deixaria naquela estação quem me deu a mão para tomar a minha viagem .
Esse telefonema mobilizou " meio Quartel" exagero meu . mas quase ....
Pelos altifalantes do quartel anunciaram assim :
Chamam ao telefone O ExºSr Furriel Piteira , olha que importante eu fui ....
depois vinha o melhor , o pessoal assim que me apanhou as bocas de jovens irreverentes e de um salutar gozo ....
Frente a um pelotão ,fiquei ruborizado com o gozo da malta , sacanas .... afinal
quem teria sido ... e eu desenfiado no Café Águias D`Ouro ..... porreiro, na maior !!

sábado, 9 de outubro de 2010

O RESTO DA HISTÒRIA TU CONHECES......... !


Para o meu amigo Zé
Lembras-te? Já lá vão três décadas e mais uns pósinhos...

Era uma vez um miúdo de vinte anos ingénuos que acreditava nos “amanhãs que cantam” e na “superioridade moral” dos homens que diziam estar a lutar pela construção, na terra, desses mesmos amanhãs cantantes....
Afinal... o resto da história tu conheces...
Contigo desabafei muitas vezes o meu espanto dorido - e as minhas lágrimas - ao ir descobrindo, da pior maneira, quanto me enganara, na minha ingenuidade tola. Os “amanhãs que cantam” ninguém os chegou a ouvir, não passavam de uma fórmula com data de validade já ultrapassada. E quanto à tal “superioridade moral”, deixem-me rir, dependia das pessoas e das situações. Havia de tudo: umas quantas pessoas que hoje recordo com admiração e gratidão, muita gente amorfa e deixa-andar que estava naquela onda porque, era a onda da moda neste nosso aparvalhado país e... pois, havia também uma boa meia-dúzia de “gente com olhinhos” que sacaneava os outros pelas costas e, cheios de falinhas mansas e/ou empolados discursos pseudo-revolucionários, vendia a sua “superioridade moral” por um prato de lentilhas, quando não por um mísero pires ou colher de lentilhas.

Zé, duvido que, lá no teu isolamento de boa fé, chegues a ler isto. Talvez melhor assim. Recorda antes os momentos alegres de convívio, o tal Natal em que fomos á missa do galo (lembras-te?), as conversas por vezes divertidas que tinhamos até ás tantas .
Gostei muito de te rever hoje.
Para ti, meu amigo, um poema que está de acordo com a tua maneira de ser.


Porque os outros se mascaram mas TU não

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

domingo, 3 de outubro de 2010

E AGORA,JOSÉ.....!!?



Olho e sigo um sinal..
Já não sou eu quem caminha
Sou levado por meus olhos
E guiado por meu coração
Que é o meu mestre
Sim, o meu humilde coração

Uma luz ao longe
Faz-me crer
Que não estou longe
Ou ao menos sinto
Que algo me chama
Para um renascer

A noite fascina...
São momentos de sedução
E o brilho da lua cheia
Que encanta sem pedir
Deixa-me tão fascinado
Entre sentir e o seguir

São sentimentos escondidos
Que se soltam pelo ar
São sonhos que se achavam perdidos
E que voltam a aflorar
Afloram como se fossem
Nuvens ao luar

Continuo em meu caminho
Que me deixa sem pensar
Entrego ao meu coração
A luz do meu olhar
E descubro na imensidão
Um lugar para ficar

Guiado por meu coração
E iluminado por meu olhar
Chego a este lugar
Que me oferece
Sem eu esperar
Um outro coração
Que me espera sem cansar

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

ERA EU.......APENAS EU ...









Eu..... Era apenas Eu....

Interessante como a fotografia (quando no momento certo), pode mostrar quem realmente somos.... Desvendar nossa alma... Remover máscaras... Imortalizar um instante valiosíssimo, fazer-nos reflexionar...
Neste click “Eu” era apenas “Eu”....
Estranho afirmar isso para muitas pessoas...
Talvez....
Mas....
Para quem tem uma mente inquieta como cavalos selvagens, que geralmente não para nem um segundo do dia ou da noite, afirmar que “eu era apenas eu”... Isto significa muito.....
Sou inquieto, meu coração é inquieto.... Possuo uma inquietação que me acompanha desde que me entendo como gente. Será bom ou ruim? Não sei.... Depende...
Aliás, vamos ser lúcidos...
Sem interrogações neste instante, sem cobranças... Sem racionalismo.... Sem sentimentalismos.... Vamos nos despir de conceitos e preconceitos....
Vamos apenas viver este momento...
“Eu era apenas eu”....
Com a mente vazia, calma, equilibrada e feliz.... Eu era a união de todas os Josés e ao mesmo tempo nenhum deles.
Neste instante, neste breve e pequenino instante, (uma fracção de segundos talvez) minha ALMA foi fotografada.
Obrigada por este “click da alma” meu amigo, ele serviu para me mostrar que existe hora de acelerar e de reduzir a marcha e... Talvez... Esta foto me mostre que seja o exacto momento de reduzir o ritmo dos pensamentos... (pelo menos tentar, pois é muito difícil)
Deixar que a vida simplesmente aconteça, permitir que as águas fluam para o mar sem aprisionamentos, sem direcionamentos, sem cobranças, sem expectativas... sem atropelos...
Ser apenas “EU”....
Instante após instante.... até quando meus pensamentos inquietos permitirem.
Segundos? Minutos? Horas? Dias? Não importa....
Apenas viver.... Apenas sentir... Apenas ter PAZ..... Ser muitas faces e não ser nenhuma ao mesmo tempo....

domingo, 26 de setembro de 2010

VIAGEM DE VIDA



SOUZEL


Hoje, depois de tanto tempo,

me permiti visitar o passado.

E relendo as páginas anteriores,

fiz um balanço das coisas escritas

no livro de minha vida.

Somando tudo,

cheguei à conclusão de que houve

muito mais ganhos do que perdas.

Até mesmo nas lágrimas que chorei,

porque tornaram meu olhar mais brilhante;

até mesmo nas pedras onde tropecei,

pois me fizeram ficar mais atento ao caminho

por onde passava.

De cada desafio vencido

uma vitória;

de cada derrota

uma lição.

E a cada tombo

fui me fortalecendo mais.

Muitos passaram por minha vida:

alguns deixaram

seu perfume impregnado no ar;

outros deixaram

o gosto amargo de fel

e há os que passaram em branco,

deixando apenas

uma leve lembrança.

Amores eu tive poucos

mas de cada um retive

uma pétala de rosa

que guardo neste livro,

como lembrança.

Me fizeram sorrir...

chorar...sonhar...

Me mostraram a vida...

me fizeram desejar a morte...

Das dores ficaram

as marcas impressas

para que eu me lembrasse sempre

de agradecer a Deus

pelos momentos felizes,

mesmo que esses fossem fugazes,

porque da felicidade, em si,

não conheço muita coisa;

e acho mesmo,

que no fundo,

ninguém conhece.

sábado, 25 de setembro de 2010

SONHANDO FUTURO ........!!!



Luz acesa? Há tanto tempo que não passava por esta estrada. Será que está lá alguém? Desta vez vou entrar pela porta da frente e não pela janela... Tenho medo que sejam novos habitantes... E são, nós já depois de tanta coisa que por nós passou. Podiam ter sido anos, quase que pareceram. Depois de ter sido posto para fora, talvez me tenha enganado na pessoa , tive de ir arranjar mais dinheiro...

Já te disse eu como amo este espaço, que só existe comigo !!!

Agora sou eu que recordo esta casa... e estou encantado por reve-la... posso fazer tudo o que entender. Quero decora-la contigo, devolver-lhe vida, a alegria que uma casa de casal, , pode ter...

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

MEMÓRIAS DE UM POVO


Estava só ... aquele dia iguais a tantos outros,sentado numa esplanada do café sobranceiro ao jardim municipal, bebia um café depois de almoço,fumei um cigarro à socapa, porque ainda não tinha fumado diante do meu pai..haveria pois quem me olhasse com sentido de reprovação.
Status ou irreverência.... !?
Vigiados quando estávamos em grupo porque poderíamos ter ideais progressistas ,já éramos jovens com alguns conhecimentos, será que era por falar-mos de Zeca não sei se o "informador saberia quem era " ou talvez pelos diálogos do dia que houve as eleições para a Assembleia Nacional , éramos menores ,mas já sabíamos quem ganharia ..pelo comentários dos mais velhos !
Mas nesse dia aproveitei para ouvir .... algumas passagens de 2ª Guerra Mundial e as repercussões em Sousel , extractos de memória desses comentários .
Alguém dizia - Nessa época ,com certos companheiros ,em cafés ou tabernas , passava-se os dias , lendo os jornais (quem sabia ler)que se devoravam de ponta a ponta sobre a guerra de Hitler_era um crime .era o fim de tudo isto , assim se julgava nesse tempo.
Grande parte do nosso Povo aglomerava-se em bichas, com cupões de cadernetas ,para angariar meio-quilo de pão e pequenas parcelas de arroz ,de açúcar ou de outras mercearias.
A guerra tocava-nos a todos que mais não fosse pelo dever moral de compaixão com milhares de pessoas que foram transportadas para campos de concentração e ali eram tratados sem o mínimo de dignidade,os jornais "Diário de Noticias" e "Século " assim informavam.
Lugares de gasolina fecharam.os transportes colectivos ,muitos deixaram de circular,e s camiões não eram todos os que circulavam , porque os seu proprietários não lhes podiam fazer ampliação para geradores a carvão .... gasolina e gasóleo desapareceram.
Estaríamos ameaçados pela guerra e por uma ameaça de crise económica a ponto de nos fazer sofrimento; mas longe dos horrores e das brutalidades que os jornais nos mostraram dessa pobre gente dominada pela força das armas e no fim condenada à pena ultima
O povo aglomerava-se em volta das telefonias e ouvia noticias da guerra, que locutores como Fernando Pessa transmitia .....
Foto: Sousel-MALUDA

terça-feira, 14 de setembro de 2010

OS MENINOS DE ABRIL !


Meu menino
Já ninguém estranhava. Desde que o filho morrera em Angola, na guerra, a Ti Custódia desatara a falar sozinha. A toda a hora: enquanto varria as folhas secas da figueira e das trepadeiras no quintal. Na estrada velha a caminho da mercearia do Jonico onde ia comprar pão. Na cerca onde plantava umas batatas e outros legumes para o gasto da casa. Por vezes eram conversas intermináveis, feitas de meias frases, de palavras sem nexo que ninguém entendia. As pessoas passavam e cumprimentavam-na: Como vai, Ti Custódia? Mas ela nem respondia. Absorta no falajar, nem dava pelo cumprimento.

Mas era no meio da Ria, na solidão de gaivotas e caranguejos, curvada sobre o viveiro de amêijoas que limpava, que Ti Custódia soltava, num desespero de gestos e palavras gritadas, a dor imensa que lhe cortava a alma: Volta filho, volta que a mãe morre de saudades de ti...
Cá de cima, encostado ao muro do velho Forte da vila, paredes meias com a igreja, debruçado sobre a Ria Formosa, o guarda-fiscal Matias olhava Ti Custódia e não conseguia deixar de suspirar. Ao contrário do que dizem as pessoas e os livros – pensava -, há coisas que o hábito e o tempo não desvanecem. Coisas boas e coisas más.

Para ele, Matias, era bom olhar a beleza azul-esverdeada da Ria Formosa, as águas mansas espraiadas na maré alta, apertadas na maré baixa, o veludo escuro do chão lodoso à vista.
Havia quase vinte anos que viera para aquele posto e todos os dias se encostava ao muro do Forte e olhava a Ria com os mesmos olhos extasiados da primeira vez: os barcos e bateiras a balouçar, os voos circulares ou picados das gaivotas, as marcas verticais dos viveiros, o labor humano dos homens e mulheres que cuidam da amêijoa em crescimento. Depois os olhos perdiam-se na ilha estreita e comprida, no areal fulvo, na linha densa das copas redondas dos arbustos baixos. E, logo a seguir, no mar. No azul do mar a prolongar-se, em dobra na linha do horizonte, no azul suave do céu. E sobre tudo, e sobre todos, a luz intensa e o quente sol de oiro do Algarve, em reverberações de cal branca e cores garridas.

Mas, para Ti Custódia, a beleza da Ria escoara-se no lodaçal no dia em que soube que o seu menino, a combater lá longe, em África, morrera. Para ela, o tempo não iria curar nunca a ferida e o vazio do filho que lhe fora arrancado. Meu menino! Meu menino...
Ainda por cima, o corpo do filho nunca lhe fora entregue, pensava o guarda-fiscal Matias, a fixar o vulto escuro de Ti Custódia, curvada no viveiro. Muitos voltavam em caixões de chumbo, e as famílias sempre podiam, ao menos, aliviar a mágoa com o funeral e o luto. Mas assim...
E agora, cinco anos depois do telegrama oficial com a trágica notícia da morte do filho, o outro filho da Ti Custódia, o mais novo, estava a um passo de ir para a tropa... e para a guerra no Ultramar, como o irmão.
Pobre Ti Custódia, pobres moços com a vida e a juventude truncadas, que raio de guerra esta!...

*

«Mãe, tenho uma coisa para lhe dizer. É uma coisa muito importante. Uma coisa que a mãe não pode nunca repetir. Nunca, a ninguém, nem à nossa Fatinha, pois a minha irmã ainda é muito nova e estouvada e pode descair-se com alguma palavra.»
Estavam as duas na cozinha, mãe e filha. Era de noite e estavam sozinhas, sentadas a costurar à luz mortiça de candeeiros de petróleo.
A mãe levantou os olhos enrugados para a filha: «Diz, Mariana.»
Mariana ajeitou no colo a peça de roupa que cosia, fixou o envelhecido rosto materno e respirou fundo: «Mãe, o nosso Zé António vai mesmo dar o salto.»
Ti Custódia estremeceu. Tremeu-lhe o corpo e fecharam-se-lhe os olhos. Mas perguntou ainda: «Quando?»
«Não sei, mãe, um mês, dois... Nem o meu irmão sabe a data concreta. Será avisado quase de véspera.»
Ti Custódia curvou-se toda na cadeira baixa, a olhar fixamente o chão, como se procurasse, no entrançado do capacho, alguma inspiração ou força obscura. E acrescentou, passado algum tempo: «É melhor assim. Assim não vai combater. Prefiro sabê-lo vivo, mesmo não o podendo ver nem com ele falar.»
O relógio de parede bateu horas, numa sucessão cadenciada de badaladas, e Mariana disse: «É melhor irmos deitar, que isto faz-se tarde e o petróleo do candeeiro está no fim.»
«Vai tu, filha, que a mim não me serve de nada ir para a cama que não durmo. Vai, Mariana.»
Ti Custódia ficou sozinha, na penumbra da cozinha, acabrunhada entre sombras e pensamentos. Via o filho mais velho. Era tão bonito o seu menino, com aqueles olhos pretos que riam com o brilho de pedras preciosas!... Meu menino, estás sempre vivo no meu coração... E agora o mais novo, com a tropa à espreita... Ah, Deus, que vida esta!... Que pouca sorte que lhe calhara como destino, a desta guerra em África!
Mas logo ouviu, clara e nítida dentro dos próprios pensamentos, a voz firme do filho mais novo: Mãe, não diga que a guerra é pouca sorte do destino, que é fatalidade ou vontade de Deus. A guerra é feita pelos homens. Pelos homens, mãe, e está nas mãos e querer dos homens acabar com a guerra.
Ah, onde teria este menino, vinte anos ainda por fazer, ido buscar estas ideias?... E agora ia fugir à tropa e dizer não à guerra, passar o Guadiana num sítio esconso, pela calada da noite, a esconder-se da GNR e da Guardia Civil espanhola, atravessar a Espanha e chegar a França. À liberdade.
França. Pelo menos tinha lá o cunhado, o marido de Mariana, lá emigrado a ver se ganhava alguma coisa para endireitar a vida. Mas esse fora com papeis legais. E naquela casa ficariam três mulheres e as crianças. Ela, viúva. A filha Mariana longe do marido emigrado há anos. A filha mais nova, a escrever cartas e aerogramas para um namorado que também estava na guerra de África. Que vida, que guerra, que destino...
E o eco das palavras do filho a ressoar-lhe de novo na cabeça, a pôr-lhe em dúvida as ideias: Mãe, a guerra é feita pelos homens. Está nas mãos dos homens acabar com a guerra. Assim como fazem a guerra podem fazer a paz e a concórdia.
*

«Ó mãe, já sabe o que sucedeu?»
«Eu não, filha, mas donde vens tu a sorrir dessa maneira tão alvoroçada?»
«Mãe, houve um golpe, uma Revolução, uma coisas dessas em Lisboa. Feita pelos militares. Foi esta madrugada, mas só à bocado é que me contaram. Olhe, tenho estado a ouvir na rádio e já deram na televisão. Lisboa está cheia de gente nas ruas. E de militares no meio das pessoas. Mas tudo pacífico. E o Marcelo Caetano e o Tomás acabaram de ser detidos e já não governam mais em Portugal. E estão a prender os Pides. Mãe, Portugal está a dar uma volta muito grande, isto está tudo a mudar. Venha comigo ali ao café do Largo ver na televisão. Têm estado a mostrar as pessoas na rua. Sabe o que elas gritam? Liberdade, liberdade! E gritam também: Fim da guerra colonial! Ah, minha mãe, já percebeu o que isso significa? Estou tão feliz, tão feliz!...»
*

De pé, no meio da Ria em baixa-mar, Ti Custódia deu por findo o trabalho desse dia no viveiro. Foi então que avistou o filho. Vinha a descer a falésia em direcção à Ria. Era tão parecido, este seu menino, com o irmão que morrera na guerra... Que lhe quereria ele? Não conseguiu deixar de se assustar. Será desta que sempre vai dar o salto? Será a despedida?
«O que tem, mãe, que está branca como a cal da parede?»
«Ai, filho, vens me dizer o tal adeus?»
«Ó mãe, que ideia... Eu já não preciso de fugir. Os tempos mudaram com a Revolução. A guerra de África vai acabar. Talvez eu já nem vá à tropa... Ó mãe, não vai haver mais fuga, nem salto, nem Ultramar. Sossegue o coração, mãe.»
Então Ti Custódia, com um suspiro fundo, ficou a olhar e a sentir a luz em jorros que enchia a manhã, a vida na Ria feita de murmúrios de moluscos e bivalves, correres apressados de caranguejos, voos e grasnidos de gaivotas, o baloiçar suave de barcos e botes, reflexos translúcidos nas águas calmas, a igreja e o Forte lá no alto, as piteiras e espinheiros na encosta, a ilha dourada pelo sol quente, o azul do céu e o azul do mar e o azul da Ria. E sorriu. Pela primeira vez em cinco anos. Era tão bela, de uma beleza transbordante e divina, a Ria Formosa!

A minha primeira pergunta em 1961 , porquê? que via ser de nós portugueses, na minha pacata vila alentejana acharia que não me tocava as tristezas de uma guerra, 14 anos depois voltaria a ansiedade e a mesma pegunta ... o tempo deu-me a resposta !
Um belo texto que recebi ... espero que o autor não se importe de eu o postar.. e que
para quem o ler são memória de um passado recente , Lembrar para não esquecer !